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Casos conjugais movimentam o trabalho
dos detetives
Texto: Ana Maria Ferreira
O mercado de investigações
particulares parece imune a crise econômica do País, pois
desconfianças, traições, crimes e sabotagens não são suspensos em
momentos de crise. A escassez do mercado de trabalho tem levado
muitos jovens a tentar a sorte como investigadores particulares.
Existem cursos em todo o Brasil que passam as noções básicas do
trabalho, mas o que todo bom detetive tem que ter é curiosidade.
Hoje a área industrial requisita muito
o trabalho dos Sherlocks para tentar combater a pirataria de suas
marcas. Na maioria são os advogados-detetives, ligados a grandes
empresas de advocacia, que acabam prestando mais este serviço ao
cliente, como é o caso do escritório Momsen e Leonards,
responsável por 50 mil marcas.
Existe ainda a Central Única Federal
dos Detetives do Brasil com site na Internet (http://www.centralunica.com.br),
que atende 24 horas por dia. Com doze anos de experiência o
detetive Lima, idealizador da Central, fala com exclusividade ao
Jornal da Cidade sobre o mundo das investigações.
JC -
A profissão de detetive particular é
regulamentada?
Detetive Lima -
A profissão de detetive é
regulamentada no País pela lei federal n.º 3099/57 que "determina
as condições para o funcionamento de estabelecimento de
informações reservadas ou confidenciais, comerciais ou
particulares". É a primeira que permite a abertura de uma agência
de investigações. É preciso fazer um registro na polícia federal
com antecedentes criminais e tudo.
JC -
Como é a feita a contratação do
serviço? E qual é hoje o tipo mais requisitado?
Lima -
Em primeiro lugar a pessoa nos liga
para marcar uma hora e durante a entrevista ela nos conta tudo
sobre o caso que ela quer investigar. Hoje, aqui em Brasília, para
se ter uma idéia mais clara, estamos sendo muito requisitados para
apurar casos de jovens envolvidos com drogas. Geralmente, os pais
entram em contato com a agência preocupados com o fato dos filhos
estarem correndo o risco de se envolverem com drogas. Na maioria
das vezes não há flagrante porque os próprios pais não querem que
isso se torne público, então por mais provas que a gente
apresente, alguns nem acreditam.
JC -
E os casos conjugais?
Lima -
Bom, esses são na verdade os que
sustentam o detetive brasileiro; 80% das investigações são
solicitadas por homens, vítimas da traição das esposas.
JC -
Quantos detetives existem no País?
Lima -
A Central Única tem cadastros em torno
de 2.500 a 2.800 detetives em todo o Brasil. Agora, no geral, mas
não é um dado oficial a estimativa é de que aproximadamente
existam 8 mil profissionais em território nacional. Os homens são
maioria, de cada dez detetives 9 são homens. São Paulo concentra o
maior número de detetives. Existe campo para todos, pois a cada
momento, uma pessoa desaparece, um carro é roubado, uma pessoa é
traída etc.
JC -
É preciso fazer algum tipo de curso
para exercer a profissão?
Lima -
A profissão foi regulamentada em 1957,
mas os primeiros profissionais surgiram no final dos anos 60. O
decreto federal 50532-61 trata da regulamentação da profissão. É
preciso ter mais de 18 anos e primeiro grau completo, no mínimo.
Nós oferecemos um curso de formação que tem sido muito procurado
por quem já exerce a profissão, mas que não tem a documentação
regularizada. No curso a pessoa adquire uma noção do trabalho e
das várias técnicas utilizadas no mercado, e é claro que o
aperfeiçoamento só vem com a prática.
JC -
Há quanto tempo você atua e o que o
motivou?
Lima -
Aqui em Brasília há 12 anos. Minha
atividade anterior era bancário. Eu entrei na investigação com a
morte do meu avô, que alegaram ser acidente, mas provei se tratar
de negligência e crime. Meu avô morreu em 88, no Hospital de Base
de Brasília, e disseram que ele caiu da maca e teve traumatismo
craniano. Eu não me conformei com essa versão e passei a
investigar. Provei que ele foi derrubado devido a maus tratos.
JC -
Quais os tipos de equipamentos que são
usados nas investigações?
Lima -
É muito complicado você trazer de fora
do País os equipamentos. A solução foi passar a fabricar os nossos
próprios. Temos um técnico que faz os ajustes e conversões
necessárias em câmeras de vídeo do tipo das usadas em porteiro
eletrônico, identificadores de chamada telefônica ou Bina - do
qual somos representantes - escuta ambiente que é um aparelho que
emite sinais para o gravador, acionado por voz, e toda vez que
houver um ruído a gravação começa, o que não se caracteriza como
grampo, é bom que se diga. O gravador é "plantado" num ambiente,
por exemplo na sala de casa próximo ao telefone, com a autorização
da pessoa que o compra e é acionado toda a vez que o telefone
toca. O uso que a pessoa vai fazer do gravador já foge a nossa
responsabilidade. Vendemos o equipamento e instalamos caso o
cliente deseje, mas é só.
Os rastreadores de automóveis emitem
sinais até num raio de 160 Km. Não é como um radar, você tem as
informações na tela do computador. Mandamos fazer um mapa digital
através da foto por satélite mesmo. Você tem que ter o mapa da
localidade para a qual o carro está se dirigindo. Acionado um
microship passamos a receber o sinal.
JC -
Quantas chamadas vocês recebem por
dia?
Lima -
Um mínimo de 19 e um máximo de 25
chamadas para serviços por dia. Existem períodos do ano em que
esse número cai um pouco. Nossa Central atende 24 horas por dia e
a pessoa que liga sempre é atendida por um detetive.
JC -
Você se lembra de algum caso curioso?
Lima -
Uma cliente ligava muito pra cá, e na
primeira vez ficou cerca de 4 horas ao telefone contando seus
problemas e só pelo fato de conversar com alguém, ouvir algumas
dicas e desabafar ela desistiu da investigação. Essa cliente era
mais velha que o namorado e suspeitava de traição. Mas o problema
era com ela, insegurança. Fazemos um aconselhamento também. A
mulher conversa mais e desabafa. O homem não, fala pouco e parece
sempre desconfiado.
JC -
E o caso mais complicado?
Lima -
Está sendo agora. Há três meses
investigamos uma pessoa, a pedido da família, e estamos com quase
tudo pronto, mas como se trata de homossexualismo é difícil você
conseguir provas determinantes. Você fotografa duas pessoas do
mesmo sexo juntas, conversando não prova nada.
JC -
E o que é uma investigação científica?
Lima -
Vou dar um exemplo prático. Um
fazendeiro muito conhecido aqui na região plantou milho e feijão e
não nasceu nenhuma planta. Ele nos contratou e fizemos uma
pesquisa muito grande para chegar a conclusão de que o produto que
ele havia comprado estava com problema. O cliente foi ressarcido
pela empresa fabricante das sementes e teve suas terras aradas de
graça para o novo plantio.
JC -
A contratação dos serviços de um
detetive é muito cara? Qual seria o preço mínimo de uma
investigação conjugal, por exemplo?
Lima -
Realmente não se trata de um serviço
muito barato. Nós, particularmente, muitas vezes pegamos casos
para recebermos só depois da ação julgada. Nosso trabalho é
baseado em diárias, o custo médio fica em torno de R$ 280,00, ou
um contrato por tempo determinado, porque esse dinheiro se
constitui no nosso fundo de investigação. Pode variar de mil
reais, três mil reais, depende muito do que temos em mãos.
JC -
O que você acha do caso da morte de PC
Farias?
Lima -
Acompanho este caso desde o início e
tenho certeza de que ele e a namorada foram assassinados. Estão
dizendo que foram os seguranças, mas na minha opinião eles não
apertaram o gatilho, foi uma outra pessoa. Foi queima de arquivo.
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