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Espionagem Comercial Um golpe na
concorrência
Por: Mônica Régia Kato
Ela é mais comum do que se imagina. Com o uso de
táticas simples ou de planos dignos de filmes de ficção, algumas
empresas descobrem informações preciosas dos concorrentes e as utilizam
em benefício próprio..
Foi-se o tempo em que a figura do investigador
particular ficava restrita à visão romântica de Sherlock Holmes, o
detetive mais famoso da história. Hoje, como em toda profissão, há os
bons e maus investigadores particulares. Os profissionais do segundo
time é que fazem a chamada espionagem comercial ou, como se ouve mais
comumente, espionagem industrial. Trata-se, nada mais, nada menos, de
conseguir da empresa concorrente dados valiosos sobre seus clientes,
produtos ou serviços e antecipar-se a ela. Conhecendo suas intenções e
estratégias, a empresa que faz uso de um espião passa a oferecer
vantagens ao cliente da concorrente, muitas vezes acabando por ganhá-lo.
Também pode aproveitar essas informações para melhorar seus produtos e
serviços e, em casos extremos, até sabotar sua rival.
É bom lembrar que quem faz trabalhos de espionagem
é o mau profissional. Na verdade, segundo informa o detetive lima – por
motivos óbvios ele prefere ser chamado apenas pelo nome de guerra -,
“embora não existam dados oficiais, estima-se que haja cerca de 8 mil
profissionais em território nacional, mas é uma parcela pequena que se
dedica a esse tipo de negócio”. Lima é investigador particular há doze
anos e é proprietário da Central Única Federal dos Detetives do Brasil,
empresa do Distrito Federal que presta serviços nessa área, além de
oferecer cursos de formação e especialização profissional.
Outras vias
O detetive Lima, que trabalha no serviço de
contra-espionagem, garante que a idéia daquele espião vestido com
sobretudo, chapéu, óculos escuros e bigode postiço não passa de
fantasia. “O perigo normalmente está bem debaixo do seu nariz e pode vir
de quem você menos desconfia”, profetiza. Alem dos maus investigadores
particulares que exploram esse nicho da profissão, há outras vias mais
diretas quando o assunto é espionagem industrial. Uma delas,
extremamente comum, é subornar um funcionário, em geral humilde, da
empresa concorrente. Em troca de dinheiro, ele passa informações
importantes sobre a rotina da empresa. E está armada a arapuca! Outro
caso bastante freqüente é a infiltração de pseudofuncionários na empresa
alheia. Normalmente o cara entende da área onde vai Ter de atuar e, com
isso, pode passar tranqüilamente como mais um na equipe de trabalho.
Engana-se quem pensa que esse processo é rápido e
indolor. Muitas vezes o espião passa mais de ano infiltrado, coletando
dados e buscando acesso aos segredos do negócio. “há casos que levam até
cinco anos entre o planejamento, a execução e o seu sucesso. Funciona
como se fosse um verdadeiro plano de guerra”, conta Lima.
Também é bastante habitual que um funcionário seja
subornado anos a fio, fornecendo dados em relatórios periódicos e
denunciando movimentações anormais no fluxo de trabalho. Ou seja, a
qualquer ocorrência suspeita ou que possa “render pano para manga”, a
contratante da espionagem é imediatamente avisada. O detetive Lima se
recorda do caso de uma grande empresa de Brasília que mexia com
concorrência de licitações públicas. “Descobrimos que o faxineiro de lá
tirava cópias à noite de todos os fax que chegavam e passava para a
empresa que tinha interesse nessas informações. De posse desses dados,
claro, levava grandes vantagens sobre os concorrentes”.
No entanto felizmente, na outra ponta desse novelo,
há os profissionais sérios, esses sim, capazes de utilizarem seu
conhecimento técnico e sua astúcia para atuarem na contra-espionagem.
Para o detetive Lima, a adoção dessa prática é imprescindível. “Posso
afirmar com convicção que 80% das empresas vivem em guerra constante,
tentando conseguir informações úteis de seus concorrentes. Quem não se
defende pode se dar muito mal”, sentencia Lima.
Justamente para ajudar as empresas a se protegerem
dessa rede de espionagem é que entram em cena os detetives do “primeiro
time”. Eles orientam os empresários a se certificarem, por exemplo, se
seus novos ou antigos contratados têm ficha limpa na polícia. “o nada
consta criminal não é mera formalidade. É uma necessidade”, lembra o
detetive Lima. Também é pelo suporte desses detetives que o dono da
empresa pode saber exatamente o que se passou numa reunião decisiva. Por
ação e obra dos detetives, ela pode ser monitorada, como eles dizem ou,
mais explicitamente, gravada nos seus mínimos detalhes. Câmaras
colocadas em pontos estratégicos do escritório são responsáveis pelo
registro de todas as transações de computadores, e canetas transmissoras
podem gravar conversas importantes. Para que este tipo de ação não
caracterize crime, é importante esclarecer que a gravação da conversa
entre duas pessoas estranhas é proibida. Mas quando um dos
interlocutores é quem está gravando, mesmo que o outro não saiba, não é
crime.
A proteção não sai barata. Pode ser cobrada por
diárias com contrato firmado por prazo determinado, que variam entre R$
200 e R$ 400, dependendo da região do país. Também pode ser contratada
para trabalhos contínuos, cujos preços, salgados, giram entre R$ 5 e R$
25 mil mensais, dependendo do trabalho e do porte da empresa. Além
disso, o serviço pode ser combinado apenas para se descobrir fatos
específicos. Para identificar se o telefone está grampeado, por exemplo,
cobra-se, em média, R$ 500. Os preços parecem não desanimar os clientes
desconfiados ou precavidos.
Mesmo com o uso dos mais sofisticados recursos de
contra-espionagem, pode-se dizer que uma empresa nunca está 100% segura.
Prova disso foi a recente experiência na Central Única Federal dos
Detetives do Brasil. Para mostrar que às vezes nem sempre o santo da
casa faz milagre, o detetive Lima conta que teve o telefone da empresa
grampeado por outro profissional da área, seu concorrente, por mais de
20 dias. “A intenção dele era espionar nossa forma de trabalhar e nosso
sistema de captação de alunos. Acontece que uma futura aluna nos ligou
de Curitiba, informando-se sobre nossos cursos e preços. Acertamos
alguns valores e ela nos passou um fax com os dados dela. No dia
seguinte, essa moça recebeu um fax de outra empresa, oferecendo o mesmo
curso com preços menores do que os nossos. Assusta, entrou em contato
conosco e nos deu o alerta. Então fizemos uma varredura telefônica e
descobrimos o autor do grampo”, relata Lima.
Pelo visto, seguindo o ditado popular, é melhor
prevenir do que remediar. Manter os olhos sempre vigilantes ajuda, e
muito, no sucesso dos seus negócios.
O que diz a lei
A profissão de investigador particular existe desde
1957, de acordo com a Lei Federal n.º 3099/57, regulamentada pelo
Decreto Federal n.º 50.532/61. Essa lei exige que o profissional não
tenha ficha criminal e que seja registrado no Departamento de Polícia
Federal.
No entanto, a burocracia não impede que alguns
investigadores caminhem pelas estradas tortas da profissão. Está dentro
de suas atribuições investigar informações, mesmo que estas não sejam de
domínio público, mas sempre respeitando a intimidade e a inviolabilidade
dos direitos privados de cada cidadão. Por vezes, isso é desrespeitado.
Muitos que se dizem investigadores particulares tem sua atividade no
plano da ilegalidade, expondo pessoas, invadido sua privacidade.
O exemplo mais fiel disso é o grampo telefônico,
considerado crime, segundo o artigo 10.º da Lei 9296/96, que proíbe
qualquer interceptação telefônica, o que inclui, também, o direito à
privacidade no correio eletrônico. Quem for pego grampeando telefone
está sujeito à pena de dois a quatro anos de reclusão. Um funcionário
que tem cargo de confiança e passa informações sigilosas para uma
empresa concorrente também está fazendo as vezes de um espião comercial
e, portanto, cometendo um crime. Esse crime está descrito no artigo 325
do Código Penal Brasileiro, que diz quem revelar fato de que se tem
ciência em razão do cargo e que tem de permanecer em segredo ou
facilitar a sua revelação constitui crime. A pena prevista é de seis
meses a dois anos de reclusão.
O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da
Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas e conselheiro e
diretor cultural da OAB-SP, afirma que problemática da espionagem
industrial existe e desafia a todos os empresários e profissionais
ligados à Justiça. “Maios do que constatar a espionagem, o complicado é
prová-la e buscar os cabeças da operação. Por isso mesmo, é importante
que os empresários se protejam preventivamente contra o problema e, em
caso de desconfiança, possam contratar serviços de contra- espionagem
para fazer varreduras na empresa, além de verificar o comportamento de
alguns funcionários. Muitas vezes o simples fato de abrir uma
investigação desse tipo estanca o processo de espionagem”, diz o Dr.
D’Urso
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