Pais que espionam os filhos
Por Rosana Zakabi
Famílias contratam
detetives particulares para descobrir se jovens usam drogas
Qualquer família entra em desespero quando descobre que um de seus membros se
envolveu com drogas. Não há receita fácil para lidar com essa situação
dilaceradora. Pior ainda é decidir o que fazer quando não se sabe e apenas se
desconfia. Uma solução drástica está se tornando comum entre as famílias de
classe média: contratar um detetive para tirar a dúvida a limpo. Investigar
jovens de classe média para saber se há envolvimento com drogas é hoje o serviço
mais solicitado às agências de detetives particulares, atrás apenas dos casos de
infidelidade matrimonial. A maioria da clientela mora em São Paulo e no Rio de
Janeiro. Mas também há demanda pelo serviço no Espírito Santo, Brasília, Bahia,
Paraná e Rio Grande do Sul. A investigação é simples, na maioria das vezes. Os
detetives seguem o jovem desde o momento em que sai de casa até a hora em que
retorna. Em alguns casos, grampeiam os telefones da casa, vasculham os e-mails
do investigado e usam disfarce para se aproximar de seus amigos.
A suspeita dos pais é confirmada em 90% dos casos. "Geralmente eles já sabem que
o filho usa entorpecentes", diz Rafael Gomes, da agência Márcia e Rafael, do
Rio. "Os clientes querem apenas provas concretas, como fotos e vídeos, para
encostar o filho na parede", diz ele. Os investigados em geral têm entre 13 e 20
anos, pertencem à classe média alta e compram drogas diretamente em favelas,
botecos, lanchonetes da periferia e até dentro do próprio colégio em que
estudam. Em um caso, uma agência instalou uma microcâmera no banheiro do
cliente. A mãe tinha encontrado resíduos de pó na pia e no espelho e desconfiou
que o filho consumia cocaína. Muitas vezes, o adolescente é flagrado entrando
numa favela da periferia. "Ele fica olhando para os lados e anda rápido, com
medo de que descubram que está fazendo algo de errado", conta Lucilene Victório,
chefe do departamento de investigação do Instituto Universal dos Detetives
Particulares, em São Paulo. Em Brasília, é mais freqüente que a droga seja
comprada dentro da escola. "São alunos que adquirem grandes quantidades de
traficantes e distribuem entre os colegas", diz Edilmar Lima, diretor da
Central Única Federal dos Detetives do Brasil.
A investigação dura, em média, duas semanas e o preço é salgado: varia de 400 a
600 reais por dia. "Desvendamos o caso com rapidez porque nenhum viciado
consegue passar mais que duas semanas sem usar drogas", diz Gomes, da Márcia e
Rafael. Quando os pais decidem colocar um investigador atrás do filho é porque a
situação familiar chegou ao limite. O jovem vai mal na escola, abandonou os
amigos e a namorada, vive irritado, briga com os pais e tem insônia. Ainda
assim, nem sempre o resultado é o melhor. "Se o filho não usar drogas e
descobrir que está sendo seguido, o relacionamento com os pais desabará de vez",
afirma a educadora Tânia Zagury, autora de vários livros sobre adolescentes,
entre eles Adolescente por Ele Mesmo, da Editora Record. "Mas, se não existir
diálogo na família, o filho só vai admitir o problema diante de provas." Para o
psiquiatra paulista Içami Tiba, especialista em adolescentes, essa é a melhor
forma de tentar salvar o jovem viciado em drogas. "Nem todos os drogados têm
cura", diz Tiba. "Portanto, quanto mais cedo se descobrir o vício, seja por qual
método for, melhor."
Fonte: Revista Veja.